A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) reduziu, em maio, de 2% para 1,2% a projeção de crescimento do PIB da construção em 2026. Segundo a cobertura da época, os motivos foram custos mais altos e juros que caíram menos do que o esperado. Em setembro, a entidade manteve os 1,2%.
Como foram os trimestres
- 1º trimestre: a CBIC registrou alta de 2,9% sobre o trimestre anterior.
- 2º trimestre: queda de 0,4% sobre o trimestre anterior, mas alta de 1% sobre o mesmo período de 2025.
- 1º semestre: alta acumulada de 1,1%.
A economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, atribuiu o resultado do segundo trimestre aos juros elevados por mais tempo do que o previsto.
O que sustenta o setor
De acordo com a CBIC, a expectativa de 2026 se apoia em obras de infraestrutura, concessões, saneamento e no programa Minha Casa, Minha Vida. Um estudo anterior do SindusCon-SP com a FGV Ibre, de fim de 2025, falava em 2,7% no cenário-base, mas ele foi feito antes dos cortes e já está defasado.
O que isso significa para quem compra
Crescimento moderado não é sinônimo de mercado parado. O crédito imobiliário avançou com força no primeiro semestre (veja nosso artigo sobre o tema), e os custos de obra seguem pressionados, principalmente pela mão de obra. Para o comprador, o ponto de atenção é o reajuste das parcelas durante a obra, que costuma acompanhar o INCC.
Na prática: ao analisar uma compra na planta, olhe o índice de correção do contrato e a saúde financeira de quem constrói, e não só o preço de tabela.
O que é o PIB da construção e por que ele importa
O PIB da construção mede o valor produzido pelo setor em um período: obras de edificações, infraestrutura, serviços especializados e a cadeia que sustenta tudo isso. Como a construção emprega muita gente e consome insumos de dezenas de outras indústrias, o que acontece nela costuma se espalhar pela economia. Quando o setor desacelera, caem as encomendas de cimento, aço, cerâmica, vidro, tintas e equipamentos, e também a contratação de pedreiros, eletricistas, encanadores e engenheiros.
Para quem pensa em comprar um imóvel, o indicador funciona como um termômetro do ambiente de negócios. Ele não diz se o apartamento de um bairro específico vai valorizar, mas indica se a oferta de obras está aquecida, se as construtoras estão investindo e se há pressão sobre custos e prazos.
Por que os juros pesam tanto neste setor
A construção é uma atividade intensiva em capital. Uma incorporadora compra terreno, financia a obra, vende as unidades ao longo do tempo e só recebe o saldo final na entrega. Quando os juros ficam altos por mais tempo, três coisas acontecem ao mesmo tempo:
- O custo do dinheiro da empresa sobe. Financiar a obra e manter o estoque de terrenos fica mais caro, e alguns lançamentos são adiados.
- A parcela do comprador pesa mais. O financiamento bancário com taxa alta reduz o valor que cabe no orçamento da família, e a demanda por imóveis de maior valor desacelera.
- Os investimentos concorrem com a renda fixa. Com taxas atrativas em aplicações financeiras, parte dos investidores posterga a compra de imóveis.
É por isso que a CBIC citou, em suas revisões, juros que caíram menos do que o esperado. O resultado do segundo trimestre de 2026, com queda de 0,4% sobre o trimestre anterior, foi atribuído a esse fator.
Lendo os números sem exagerar
Dois cuidados ajudam a interpretar os dados. O primeiro é diferenciar as bases de comparação: crescer sobre o trimestre anterior (ajustado sazonalmente) é diferente de crescer sobre o mesmo trimestre do ano passado. No segundo trimestre de 2026, a construção caiu na primeira comparação e subiu na segunda, e as duas informações são verdadeiras ao mesmo tempo.
O segundo cuidado é lembrar que projeções são revisadas. A própria CBIC reduziu a estimativa em maio, e estudos anteriores, como o do SindusCon-SP com a FGV Ibre, trabalhavam com números maiores antes de o cenário de juros e custos mudar. O dado útil é a direção geral: crescimento positivo, porém moderado.
Infraestrutura, saneamento e habitação: quem puxa o setor
A CBIC menciona três frentes como sustentação do crescimento em 2026. Obras de infraestrutura e concessões geram contratos de longo prazo, mas dependem de licitações e de cronogramas públicos. Saneamento recebe impulso do marco regulatório e de metas de universalização. Já a habitação, em especial o Minha Casa, Minha Vida, mantém o volume de empreendimentos voltados à população de renda mais baixa e, desde as mudanças de abril, também à classe média na Faixa 4.
O segmento de médio e alto padrão tem dinâmica própria, mais ligada ao crédito do SBPE e à confiança do consumidor. Nele, a procura por unidades compactas e bem localizadas cresceu, como mostram os dados de Curitiba que tratamos em outros artigos deste blog.
O que um comprador pode fazer com essa informação
- Negocie com base em fluxo, não só em preço. Em um ambiente de juros altos, condições como entrada parcelada e parcelas mensais na obra podem fazer mais diferença do que um desconto pequeno.
- Observe a saúde da construtora. Setores que crescem pouco pressionam as margens. Peça informações sobre obras entregues, regime de patrimônio de afetação e cronograma físico-financeiro.
- Planeje a correção. Em obras longas, o índice de reajuste das parcelas (em geral o INCC) pode ter impacto relevante. Simule cenários de alta.
- Tenha reserva. Atrasos pontuais de obra não são raros em momentos de escassez de mão de obra. Evite comprometer toda a renda com as parcelas.
Em resumo
O PIB da construção deve crescer em 2026, mas menos do que se imaginava no início do ano. O setor segue sustentado por obras públicas e habitação, enquanto os juros limitam o ritmo do mercado privado. Para quem compra, a leitura prática é buscar projetos com cronograma realista, contrato claro e condições de pagamento que caibam no orçamento mesmo em um cenário de custos pressionados.
Fontes
- CBIC reduz projeção de alta do PIB da construção de 2% para 1,2% em 2026 (Folha de Pernambuco)
- Construção recua 0,4% no 2º trimestre no PIB, mas cresce 1,1% no semestre (Folha de Pernambuco)
- Construção cresce 2,9% no primeiro trimestre de 2026 (CBIC)
Dados conferidos em outubro de 2026. Confirme valores e regras nas fontes oficiais antes de decidir.